quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Passado- Ausência




Hoje, amanheci com uma questão pairando sobre minha cabeça.

Tenho ouvido e assumido como verdade a célebre frase: "O passado não existe, o futuro ainda não chegou e o que importa é o PRESENTE, O AGORA".

Mas, nessa semana, meu passado veio com muita força me reencontrar, mesmo eu assumindo a postura de que ele já era, que o importante é o que estou vivendo no momento, o fato é que ele sempre será.

E, por isso, ele se dá ao desfrute de me visitar quando bem entender. Eu é que tenho que enxotá-lo, caso não queira estar com ele. E, vamos combinar, não pensar no passado é tão mais relaxante para estar no agora, não é? Faz-nos sentir verdadeiros, leves no novo modo de vida escolhido.

Faz-nos filosofar, até dizendo que “devemos plantar flores no caminho se quisermos perfumes”. Será que é por isso que não nos lembramos do passado antes desta vida?

Tá bom, podemos até não querer lembrar-se dele para nossa preservação, mas, se a gente for fazer uma profunda análise, ele está embutido na nossa essência, no nosso jeito
de ser, no agora e, por mais que a gente corra, ele nos alcança na hora que quiser.

Se considerarmos o passado como algo que já era, estamos condenados a não ter mais história. Não teríamos noção de como nosso país foi iniciado, não saberíamos lidar com nossos netos, afinal, se nossos filhos cresceram e o momento em que cuidamos deles como criança já era, então não saberíamos os cuidados básicos para com uma outra criança nesse nosso agora, que naquela época era um futuro!

Teríamos que iniciar tudo de novo, jogar nossas experiências fora e iniciar uma nova história, com novos personagens, desvalorizando em cada agora o que foi vivido no passado. O passado virou nada, tudo o que foi vivido não vale um tostão furado. O passado líquido.

Creio que dar ao passado o título de “JÁ ERA” e de dar ao “AGORA” uma importância tamanha tem a ver com nosso instinto de sobrevivência, tem a ver com o nosso medo de olhar o que fomos porque queremos fugir do que nos fez mal, do que fizemos mal e inventar um novo agora é a saída para não sucumbirmos ao lado negro da força que existe em cada um de nós.

Lidar com o passado, resolvendo suas pendências, em minha opinião é o mais sensato. Mantendo-o em seu lugar de passado, respeitando-o, respeitando as pessoas que fizeram parte dele e reescrevendo seu agora sem eliminá-lo, fingindo esquecê-lo – porque, meu caro leitor, não se esquece nada vivido, seja ele um momento ruim ou bom.
Acredito que isso magoaria menos seus participantes e nos deixaria seguir em frente de cabeça erguida, sem fazer do agora uma constante fuga, disfarçada de palavras bonitas,
bem colocadas, manipuladas, sem nenhuma profundidade, sem nenhuma emoção, com o intuito de afastar o passado que, como já disse, não se afastará. Vamos apenas dar ao futuro próximo uma negritude de relações com a bandeira de um AGORA novo. Não resolver as pendências do passado é envelhecer com uma bola de ferro no calcanhar.

Claro, todos nós temos o que espertamente chamamos de livre-arbítrio — evocado sempre em situações que nos favoreçam. Dane-se o livre-arbítrio do outro, e viver dessa forma é
uma opção para aqueles que não têm a coragem de se olhar e perceber sua responsabilidade no processo, que preferem deixar as coisas rolarem empurrando com a barriga, manipulando resultados satisfatórios a seu favor, é para aqueles que não são
fortes o suficiente para pedir desculpas, assumir erros, voltar atrás porque voltar atrás denota fraqueza, denota derrota.

Talvez seja também para aqueles que se dão o direito de julgar, condenar e impingir sentenças punitivas. Para aqueles que se sentem ofendidos e acreditam que nunca
ofenderam, para os que não acreditam na lei da “ação e reação”. Para aqueles que não vão ao encontro simplesmente, porque um dia determinaram não ir mais, é para os que têm
razões e verdades indissolúveis e os que determinam o número de chances que devem dar ao outro de errar.

Estes fazem do passado ausência no presente. Então, a vivência de anos no passado se transforma em nada num presente. Para que reinvestir? Para que tentar? Para que procurar os porquês? Melhor se calar e deixar as coisas irem acontecendo até serem esquecidas ou resolvidas de uma forma que não depreenda esforço e que não venham à tona suas responsabilidades.

Estes acumulam dívidas, perdem momentos irrecuperáveis, perdem a oportunidade de preservar amizades, magoam pessoas, mas seguem confiantes num futuro diferente, com
novos perfumes, novas histórias, fingindo bom caráter aos desavisados e acorrentados a um passado não bem resolvido.

Negar o passado, negar resolver suas questões com imposições tirânicas é protelar seu encontro, é postergar a felicidade. Em minha opinião é insanidade da boa.


Hilzia Elane - Maio/2011

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