Hoje, amanheci com uma questão
pairando sobre minha cabeça.
Tenho ouvido e assumido como
verdade a célebre frase: "O passado não existe, o futuro ainda não chegou e o
que importa é o PRESENTE, O AGORA".
Mas, nessa semana, meu passado
veio com muita força me reencontrar, mesmo eu assumindo a postura de que ele já
era, que o importante é o que estou vivendo no momento, o fato é que ele sempre
será.
E, por isso, ele se dá ao
desfrute de me visitar quando bem entender. Eu é que tenho que enxotá-lo, caso
não queira estar com ele. E, vamos combinar, não pensar no passado é tão mais
relaxante para estar no agora, não é? Faz-nos sentir verdadeiros, leves no novo
modo de vida escolhido.
Faz-nos filosofar, até dizendo
que “devemos plantar flores no caminho se quisermos perfumes”. Será que é por
isso que não nos lembramos do passado antes desta vida?
Tá bom, podemos até não querer
lembrar-se dele para nossa preservação, mas, se a gente for fazer uma profunda
análise, ele está embutido na nossa essência, no nosso jeito
de ser, no agora e, por mais que
a gente corra, ele nos alcança na hora que quiser.
Se considerarmos o passado como
algo que já era, estamos condenados a não ter mais história. Não teríamos noção
de como nosso país foi iniciado, não saberíamos lidar com nossos netos, afinal,
se nossos filhos cresceram e o momento em que cuidamos deles como criança já
era, então não saberíamos os cuidados básicos para com uma outra criança nesse
nosso agora, que naquela época era um futuro!
Teríamos que iniciar tudo de
novo, jogar nossas experiências fora e iniciar uma nova história, com novos
personagens, desvalorizando em cada agora o que foi vivido no passado. O
passado virou nada, tudo o que foi vivido não vale um tostão furado. O passado
líquido.
Creio que dar ao passado o título
de “JÁ ERA” e de dar ao “AGORA” uma importância tamanha tem a ver com nosso
instinto de sobrevivência, tem a ver com o nosso medo de olhar o que fomos
porque queremos fugir do que nos fez mal, do que fizemos mal e inventar um novo
agora é a saída para não sucumbirmos ao lado negro da força que existe em cada
um de nós.
Lidar com o passado, resolvendo
suas pendências, em minha opinião é o mais sensato. Mantendo-o em seu lugar de
passado, respeitando-o, respeitando as pessoas que fizeram parte dele e
reescrevendo seu agora sem eliminá-lo, fingindo esquecê-lo – porque, meu caro
leitor, não se esquece nada vivido, seja ele um momento ruim ou bom.
Acredito que isso magoaria menos
seus participantes e nos deixaria seguir em frente de cabeça erguida, sem fazer
do agora uma constante fuga, disfarçada de palavras bonitas,
bem colocadas, manipuladas, sem
nenhuma profundidade, sem nenhuma emoção, com o intuito de afastar o passado
que, como já disse, não se afastará. Vamos apenas dar ao futuro próximo uma
negritude de relações com a bandeira de um AGORA novo. Não resolver as
pendências do passado é envelhecer com uma bola de ferro no calcanhar.
Claro, todos nós temos o que
espertamente chamamos de livre-arbítrio — evocado sempre em situações que nos
favoreçam. Dane-se o livre-arbítrio do outro, e viver dessa forma é
uma opção para aqueles que não
têm a coragem de se olhar e perceber sua responsabilidade no processo, que
preferem deixar as coisas rolarem empurrando com a barriga, manipulando
resultados satisfatórios a seu favor, é para aqueles que não são
fortes o suficiente para pedir
desculpas, assumir erros, voltar atrás porque voltar atrás denota fraqueza,
denota derrota.
Talvez seja também para aqueles
que se dão o direito de julgar, condenar e impingir sentenças punitivas. Para
aqueles que se sentem ofendidos e acreditam que nunca
ofenderam, para os que não
acreditam na lei da “ação e reação”. Para aqueles que não vão ao encontro
simplesmente, porque um dia determinaram não ir mais, é para os que têm
razões e verdades indissolúveis e
os que determinam o número de chances que devem dar ao outro de errar.
Estes fazem do passado ausência
no presente. Então, a vivência de anos no passado se transforma em nada num
presente. Para que reinvestir? Para que tentar? Para que procurar os porquês?
Melhor se calar e deixar as coisas irem acontecendo até serem esquecidas ou
resolvidas de uma forma que não depreenda esforço e que não venham à tona suas
responsabilidades.
Estes acumulam dívidas, perdem
momentos irrecuperáveis, perdem a oportunidade de preservar amizades, magoam
pessoas, mas seguem confiantes num futuro diferente, com
novos perfumes, novas histórias,
fingindo bom caráter aos desavisados e acorrentados a um passado não bem resolvido.
Negar o passado, negar resolver
suas questões com imposições tirânicas é protelar seu encontro, é postergar a
felicidade. Em minha opinião é insanidade da boa.
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