quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Outubro de 86




Lembro que naquela manhã levantei pensativa, tentando lembrar o que eu fazia um ano antes naquele mesmo mês. O que me veio à mente foi estar vivendo a minha vida, tomando decisões sobre mim, assumindo riscos e conseqüências.E apavorada percebi que havia nove meses que eu já não mais tomava decisões apenas por mim mesma, evitava os riscos e vivia para o bem estar de um ser que estava crescendo no meu ventre.

E sabia que naquele dia finalmente eu iria conhecer face to face esse ser que eu sentia e alimentava vinte e quatro horas desde que foi concebido. Percebi você antes de qualquer pessoa, você se mostrou a princípio na transformação da organização de meu corpo.
Aprontei sua bolsa e me arrumei. Cheguei ao hospital, acompanhada de sua madrinha que estava mais nervosa do que eu precisando inclusive de uma dose de glicose na veia para recuperar um quase desmaio emocional.

E eu com o pensamento me martelando: não tem mais volta, não tem mais volta. Não dá para dizer: gente eu quero sair, estou achando que não vai dar para eu segurar essa barra, acho que ainda é cedo para eu ser mãe.

Enquanto eu pensava, a madrinha quase desmaiava, o anestesista entrava e me dizia algo, eu tomava outra coisa e o maqueiro todo alegre entrou dizendo: Enfim, chegou a sua boa hora! Como ele sabia que essa era a minha boa hora? Que essa era a boa hora de qualquer mulher? Ele nunca foi mãe cacete!

Essa é uma hora um pouco tensa isso sim, mas como não dava para fugir chegou uma hora que relaxei e fui contando o numero de lâmpadas que tinha no teto enquanto a mapa deslizava pelo corredor.

Entrei no centro cirúrgico e confesso que fiquei decepcionada, esperava algo mais aconchegante e encontrei uma sala azulejada com macas de ferro, algo assim tipo cirúrgico nada aconchegante para o nascimento de um bebê.

Enfim minha tensão retornou quando o anestesista pediu que eu me curvasse para ser anestesiada. Será que ele não percebeu a enorme barriga que eu apresentava? Que pedir para uma pessoa se curvar de posse daquela barriga era algo insano?Ela não permitia sequer que eu encostasse o queixo no peito quanto mais curvar–me um tiquinho que fosse para frente. A tensão retornou porque tive medo dele errar a mira da coluna, já que na minha opinião eu não consegui curvatura alguma, mas no final deu tudo certo. Lá estava eu adormecendo da barriga para baixo.

Ao me deitarem novamente não sei o que houve, mas danei a falar, falei pelos cotovelos assuntos sem nexos, assuntos desconectados. Então vi o olhar do meu obstetra para o anestesista e fui logo avisando: não me coloca para dormir eu quero ver tudo e ao terminar essa frase levei uma paulada e fui ficando lentinha, lentinha, lerdinha, lerdinha, um amor de pessoa deixando a equipe trabalhar em paz.

Não demorou muito, após o anestesista ter pressionado minha barriga para baixo meu bebê veio à luz. Como eu ainda não sabia o sexo, fiquei aguardando ser comunicada, mas acho que meus ouvidos ficaram anestesiados também e eu não conseguia entender o que o meu obstetra falava e só depois da terceira tentativa  é que fui saber que meu bebê era um menino e o nome dele era Rafael.

Nosso primeiro encontro foi olho a olho, os meus inundados, os deles abertos, arregalados como se quisessem entender onde estava, que claridade era aquela.

Foi bom abraçar você pela primeira vez, tocar seu cabelo, seu nariz arrebitado, suas mãozinhas enrugadas, seus pezinhos miúdos e dedinhos mais miúdos ainda.

Foi aí que tive a resposta para minhas reflexões e a tranqüilidade para minhas aflições. É querida isso aí, esse encontro aí é para sempre, não dá para voltar, não dá para sair de campo e ir jogar em outro time, mas mesmo que pudesse ali eu tive a certeza de que eu não queria voltar atrás, não queria desistir e de que apesar de não saber nadica de nada do que era educar um ser tão frágil e pequenino eu estava disposta a tentar e dar o melhor de mim para fazer dar certo.

Se deu certo? Só saberemos no final e como eu acredito que não há final então caminhante o caminho se faz ao caminhar. Caminhemos e aprendamos durante o caminho porque se vamos chegar, onde vamos chegar – isso nada sabemos.

Parabéns meu libriano.

Hilzia   Outubro 2012 

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