quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A NOITE DA MEIA FURADA



Era noite de lua cheia e tudo conspirava para que ela, a noite, fosse promissora.

Brad tinha um encontro com seu amigo Robert, encontro esse já acertado previamente onde ambos supunham iriam se beneficiar de algo renovador.

Ambos estavam em um momento de reforma íntima, de crescimento pessoal. Então sempre que havia palestras e encontros interessantes sobre o assunto iam juntos.

Dessa vez Robert enviou para Brad, via e-mail um fôlder onde anunciava uma palestrante internacional que falaria sobre alguns temas, e o primeiro Um Convite a Intimidade Interior era aberto ao público e gratuito. Brad não pestanejou e local e hora foram marcados para irem juntos. Sairiam mais cedo por causa do trânsito.

Brad de folga em casa na rede embaixo do edredom vendo um filme percebe que a hora já vai adiantada e interrompe tudo para se arrumar, liga para Robert que está no trabalho e diz que está indo.
Congela um pouco no frio enquanto Robert tenta se desvencilhar de um chefe chato numa reunião e desce. Brad achou estranho que Robert tivesse marcado tão cedo para se encontrarem, mas pensou: provavelmente foi para evitar o trânsito pesado. E foi bom porque chegaram logo ao local que admirados e pela primeira vez encontraram uma vaga bem pertinho do local da palestra. Esqueci de dizer que Robert frequenta o local a mais tempo e que Brad havia estado lá apenas uma vez.

Felizes entraram papeando, colocando as novidades em dia e em um determinado momento notaram o local muito vazio e resolveram ir até o fôlder da palestra que estava pendurado numa pilastra e se deram conta de que o horário da palestra era um pouco mais tarde do que Robert tinha fixado, resolveram então lanchar e terminar de colocar as novidades em dia o horário do início da palestra. Robert comentou com Brad que leu sobre o tema da palestra, que ambos ainda não tinham lido, e que achou esquisito, pois viu algo tipo apresentação dos institutos, mesmo assim eles não acreditaram que esse era o sinal para darem meia volta e irem para um barzinho aproveitar melhor a noite. Permaneceram ali naquele astral delicioso, de paz acreditando que a palestra tinha algo a acrescentar na vida deles. Afinal nada é por acaso, não era à toa que eles estavam ali.

O local por si só é uma delícia, a vista primeira ao entrar é uma linda montanha, o vento tremulando as bandeiras dá a sensação de voo das nossas aspirações. Flores enfeitam todos os espaços, a água corre em uma cascata nos brindando com o som da vida em movimento.
Os incensos, os livros, os chás, as comidas tudo remete a um encontro interior. Enfim tudo combinava com as aspirações de Robert e Brad.

Anunciado o início da palestras todos desceram para a sala, retiraram seus sapatos e se aconchegaram, no lugar escolhido, para ouvir a palestrante. Brad insistia em ficar no chão apesar da sua coluna não concordar com isso, pagou alguns micos na hora de sentar, mas estava tão interessado no que ia ouvir que nem se importou.

A apresentadora diz que a palestrante vai brindar o momento com uma surpresa linda e passando a palavra para a palestrante que inicia o encontro com um exercício de energia do coração fazendo com que todos se levantem, prestem atenção no seu coração e levante os braços sentindo a energia do coração fluir para fora pelos braços vagarosamente e depois os baixando senti-la voltando para o mesmo. Eles amaram esse exercício.

A palestra ficou centrada na apresentação de fotos mostrando todos os institutos pelo mundo, seus jardins, suas salas de aula, seus jantares, suas aulas de meditação, seus professores, seus trabalhos. Fotos e mais fotos de retiros onde o resto do público se reconhecia, só Brad e Robert não se viram nas fotos. Foi então que eles perceberam que era um encontro dos efetivos do grupo, de pessoas que há muito estão naquela caminhada, só não entenderam o fato de ter sido anunciado aberto ao público. O público ali era os dois.

Houve uma fala introdutória que rendeu a Robert algo interessante sobre trabalhar. A Brad o exercício do coração valeu estar ali, fora que comprou um incenso bem gostoso. De resto tiveram que ficar lá sentados – Brad com a coluna em frangalhos – durante uma hora e quarenta e cinco minutos ouvindo histórias engraçadas, sérias, filosóficas, porque a cada foto que se apresentava tinha muitas histórias para se reviver.

Teve um momento hilário no qual Brad procurando seu celular para verificar a hora foi interrompido por Robert que lhe disse: “faltam 12 minutos”, não deu para não caírem na risada e com certeza terem olhares de reprovação como teve uma das participantes ao abrir um saquinho de biscoito provocando barulhos.

Saldos da noite de lua cheia:

Robert tem certeza agora que Brad é um amigão e que pode contar com ele para todas as furadas e Robert passou a ser parceiro para as furadas de Brad.
Ambos estão convictos de que precisam ler sobre o que será apresentado nas palestra algo a mais do que ela ser gratuita.
Sabem que foram levados para lá para escaparem de alguma roubada nos outros compromissos que tinham e que desmarcaram para irem a tal palestra.
Que rir e ter bom humor, é muito bom e que vão ter mais essa história compartilhada para contar para os netos.

A furada da noite durou apenas uma hora e quarenta e cinco minutos, o resto do tempo do encontro foi como sempre uma sacra-mentalização de uma amizade de longa data. 

“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.



Obs: As verdadeira identidades foram preservadas por motivos óbvios.

 Hilzia Elane
Setembro 2012

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