É,... e após uma avalanche sem precedentes na minha vida, que teve seu início em 2004 e duração de seis longos anos, dos quais três passei em total ignorância, desatenta aos fatos em volta e os outros três tentando me reencontrar, me entender e sair do buraco em qual me encontrava, chego ao ano sétimo convencida de que a dor dilacera, mas realmente tem seu lado libertador.
Só depois que cheguei aos 50 anos, só depois que eu e meu ex-marido destruímos o casamento para sempre, só depois que a minha vida ficou de cabeça para baixo, é que finalmente parei o meu trem e desci para ver o que tinha feito durante minha passagem corrida e transloucada daqueles anos. E perguntei a mim mesma incrédula: caraca, como você conseguiu isso?
Então veio a depressão..
Uma vez alguém disse que a depressão foi um amigo enviado para salvá-lo das alturas exageradas da falsa euforia que vinha fabricando desde sempre. A depressão o empurrou de volta para o planeta terra, de volta ao chão onde finalmente seria seguro se manter na realidade.
Eu também precisava disso, precisava sair de uma ilusão criada onde eu era feliz, porém a ilusão não é uma felicidade verdadeira.
Durante o tempo em que me sentia literalmente sozinha olhei para mim, e tentei responder sinceramente perguntas que causaram dor e com a ajuda da minha querida terapeuta pude entender algumas das origens do meu comportamento tão destrutivo.
Foi difícil ficar sozinha, até porque nunca fora essa a minha realidade, mas gostei desse novo caminho e não pirei como inicialmente imaginei que piraria. Posso dizer que enfim: CRESCI.
Hoje me vejo bem avançada na minha experiência de solidão e responsabilidade perante a mim. As perdas irreversíveis são irreversíveis.
Também aprendi que quanto mais estamos desequilibrados, maior a probabilidade de que nos apaixonemos de forma rápida e imprudente. Também passei por esse caminho maravilhoso (pelo resto da vida não esquecerei as sensações extasiantes da paixão). Quem passa por grandes perdas fica sim suscetível ao amor instável. Mas ele é outra ilusão, deliciosa porém ilusão.
E é assim. Temos alguém por algum tempo e aí essa pessoa se vai. Acontecerá com todos, algum dia alguém vai.
Então nessa minha busca, depois de um esforço imenso encontrei meus defeitos mais deploráveis e nada atraentes. Foi doloroso assumí-los, um esforço grande codificar as falhas, mas me alegrei em nomeá-las, colocá-las as claras para ficar atenta e não mais depreciar minha auto-estima e ser aceita apesar deles, como uma pessoa inteira.
Descobri que tenho uma elevada estima a minha própria opinião, descobri que tenho mesmo minhas opiniões. E normalmente eu acredito que sei como é que todo mundo deve levar a vida; e os meus próximos mais do que ninguém serão vítima disso. Apesar de invasora não manipulo as pessoas, mas me deixo manipular bestamente.
Costumo aparentar ser muito entusiasmada e na minha empolgação, aceito mais do que consigo dar conta, física e emocionalmente. Por isso desmorono com demonstrações bastante previsíveis de exaustão drástica. Quem está perto de mim tem que passar o rodo e catar os pedacinhos toda vez que exagero. Isso eu sei é muito chato e desgastante para quem passa o rodo. E peço desculpas para quem impinjo esse papel.
A impulsividade é uma parceira terrível nesses momentos, falo muita M, esbravejo na realidade, chuto o balde explosivamente, mas apesar de parecer que tenho o pavio curto ele não é e aí entra outro defeito muito destrutivo nas minhas relações, eu guardo, guardo, guardo, tento não falar para não ter conflito e um dia explode com muita raiva o que ficou guardado durante muito tempo e isso destrói mais do que constrói, o se não...
Sou marrenta e orgulhosa; crítica e em alguns momentos intolerante e quando em conflito sei ser covarde. Quando tudo isso se junta me torno uma pessoa horrível de se conviver. Uma déspota.
Amo demais os outros, confio demais nos outros, acho que os outros sempre são bons, me jogo inteira nas relações, sou transparente demais e isso só me trouxe problemas, por isso considero defeitos importantes contra a minha pessoa.
Falo mais do que ouço, isso foi terrível de admitir, mas é verdade. Tenho trabalhado para mudar isso exaustivamente e encontro muita dificuldade, meu filho que o diga.
Tenho um grande problema de dispersão e isso faz parecer que não estou nem aí para o que está em volta, mas não é verdade é dispersão mesmo.
Entretanto acho que o meu maior defeito é, apesar de demorar a decidir que alguém é imperdoável, essa pessoa assim será pela vida toda. Mas tenho como abrandamento o fato de que sou muito teimosa para perder alguém, por isso corro muito tempo atrás para reverter o que quer que seja. Mas quando bato o martelo nem Jesus.
É difícil que haja presente mais generoso do que alguém aceitar o outro por inteiro, amá-las quase apesar dela. Defeitos seja eles quais forem são horríveis. Podem ferir, magoar, desfazer laços, eles tem potencial de sabotar uma relação .
Ter um mínimo de capacidade de reflexão pode nos dar o controle desses aspectos mais arriscados da nossa natureza, mas eles ficam ali, não caem fora.
E é tolice achar que alguém pode mudar o que nem mesmo nós conseguimos fazer. O inverso também se aplica.
E essas coisas que não conseguimos mudar em nós mesmos são feias, horrendas então se conseguirmos ser vistos por alguém inteiramente e ainda assim ser amado é uma dádiva, diria quase um milagre.
Todos os seres humanos têm necessidades, tensões, defeitos e tentações. Quando passamos muito tempo juntos conhecemos de perto as falhas do outro, isso é o real batendo a nossa porta, mas também conhecemos o que é digno de respeito e admiração no outro.
Guardar um espaço na consciência grande o bastante para guardar e aceitar as contradições de alguém, até as suas idiotices pode nos tornar melhores. Digo ser tolerantes adaptando a vida da maneira mais generosa em volta da pessoa decente a sua volta que às vezes, pode ser um pentelho insuportável ou até mesmo parecer um inimigo.
Ser humano é ser imperfeito, mas como diz Dalai Lama passível de compaixão.
Hilzia Elane - 09.02.2011
Hilzia
ResponderExcluirAchei seu depoimento lindo, verdadeiro, humano, uma delícia de ler. Admiro mto sua coragem!
Parabéns, amiga!
Bjs,
Nete
Enviado via iPhone
Querida, não considero isso uma coragem, apenas consigo me expor por ter aceitado minhas imperfeições e ter a certeza de que ninguém terá o poder de sabedor deles me atingir com crueldade, isso acontece quando a gente na santa ignorância e com medo nos negamos a encarar o nosso lado negro da força. Hoje sou isso positivo e negativo em perfeito equilíbrio.
ResponderExcluirObrigada amiga por ter lido.