Mesmo quando o casamento foi definido como união entre um homem e uma única mulher, nem sempre os seus própósitos foram o que supomos hoje. Nos primeiros anos da civilização ocidental, os homens e mulheres se casavam principalmente com propósitos de segurança física. Na época, antes dos estados organizados, nos tempos selvagens do Crescente Fértil antes de Cristo, a unidade de trabalho fundamental da sociedade era a família. Da família vinham todas as necessidades básicas para o bem-estar social: não só companheirismo e procriação, mas também comida, moradia, educação, orientação religiosa, assistência médica e, talvez o mais importante, defesa. O berço da civilização era um mundo bem perigoso. Estar sozinho era ser alvo da morte. Quanto mais parentes, maior a segurança. As pessoas se casavam para expandir o número de parentes. Naquela época, não era apenas o cônjuge que servia de parceiro; era toda a gigantesca família extensa, funcionando (como os hmong, pode-se dizer) como uma única entidade parceira na luta constante pela sobrevivência.
Essas famílias extensas se transformaram em tribos, essas tribos em reinos, esses reinos viraram dinastias e essas dinastias lutaram entre si em guerra selvagens de conquista e genocídio. Os primeiros hebreus surgiram exatamente com esse sistema, e é por isso que o Antigo Testamento é um festival genealógico de ódio a estrangeiros, centrado na fámília, cheio de histórias de patriarcas, matriarcas, irmãos, irmãs, herdeiros e outros parentes sortidos. É claro que nem sempre essas famílias do Antigo Testamento eram saudáveis ou funcionais ( vemos irmãos matando irmãos, irmãos vendendo irmãos como escravos, filhas seduzindo o próprio pai, cônjuges traindo conjuges sexualmente), mas a narrativa principal trata sempre do progresso e das atribulações da linhagem, e o casamento era fundamental para a perpetuação dessa história.
Mas o Novo Testamento - ou seja, a chegada de Jesus Cristo - invalidou todas essas antigas lealdades familiares num grau quem, em termos sociais, foi verdadeiramente revolucionário. Em vez de perpetuar a noção tribal de "povo eleito contra o mundo", Jesus (que era solteiro, em contraste marcante com os grandes heróis patriarcais do Velho Testamento) ensinou que todos somos eleitos, que todos somos irmãos e irmãs unidos numa única família humana. Agora essa era uma ideia absolutamente radical que não teria a mínima possibilidade de deslanchar num sistema tribal tradicional. Afinal de contas, não se pode abraçar um estranho como se fosse irmão, a menos que se quisesse renunciar ao irmão biológico de verdade, derrubando assim um código antigo que interligava cada indivíduo aos seus parentes de sangue numa obrigação sagrada e o deixava ao mesmo tempo em auto-oposição diante do estrangeiro impuro. Mas era exatamente esse tipo de lealdade feroz ao clã que o cristianismo buscava derrubar.
Como ensinou Jesus: "Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc, 14, 26).
Livro: A Comprometida - Elizabeth Gilbert
Livro: A Comprometida - Elizabeth Gilbert
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