Mas é claro que isso criou um problema. Se vamos desconstruir toda a estrutura social da família humana, o que vai subvstituir essa estrutura?
O plano cristão inicial era incrivelmente idealista e até absurdametne utópico: criar uma réplica exata do céu aqui na terra. "Renuncia ao casamento e imita os anjos", ensinava são João Damasceno por volta de 730 d.C, explicando o novo ideal cristão em termos nada incertos. E como imitar os anjos? Reprimindo as compulsões humanas, é claro. Cortando todosos laços humanos naturais. Mantendo sob controle todos os desejos e lealdades, com exceção do desejo de se unir a Deus. Nas hostes celestes dos anjos, afinal de contas, não existiam maridos e mulheres, mães e pais, adoração de ancestrias, laços de sangue, vingança de sangue, paixão, inveja, corpo - e, mais especificamente, sexo.
E esse devia ser o novo paradigma humano, segundo o modelo do exemplo de Cristo: celibato, companheirismo e pureza absoluta.
Essa rejeição da sexualidade e do casamento representou um enorme afastamento da forma de pensar do Antigo Testamento. A sociedade hebraica, por sua vez, sempre viu o casamento como o arranjo social mais digno e moral de todos (na verdade, os sacerdotes judeus têm obrigação de casar), e dentro desse laço do matrimônio sempre houve a presunção franca do sexo. É claro que o adultério e a fornicação aleatória eram atividades criminalizadas na antiga sociedade judaica, mas ninguém proibia marido e mulher de fazerem amor nem de terem prazer com isso. O sexo dentro do casamento não era pecado; o sexo dentro do casamento era ...casamento. Afinal de contas, era com sexo que se faziam bebês judeus, e como aumentar a tribo sem fazer bebês judeus?
Mas os primeiros visionários cristãos não estavam interessados em fazer cristãos no sentido biológico (como nenéns saídos do útero); em vez disso, estavam interessados em converter cristãos no sentido intelectual (como adultos que buscavam a salvação por opção individual). Não era preciso nascer no cristianismo; o cristianismo era escolhido por adultos, por obra e graça do sacramento do batismo.
Do livro : Comprometida - Elizabeth Gilbert
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