terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

INFIDELIDADE NAS RELAÇÕES

"O primeiro casamento de Felipe não terminou por causa da infidelidade. Em vez disso, o relacionamento foi enterrado sob uma avalanche de infortúnios circunstanciais que causaram pressão demais sobre a família, e finalmente os laços se romperam. Foi uma pena, porque acredito honestamente que Felipe foi feito para se acasalar uma vez só pela vida inteira. Ele é leal em nível celular. Talvez isso seja quase literal. Nos estudos evolucionários recentes, há uma teoria que defende a existência de dois tipos de homem no mundo: os feitos para ter filhos e os feitos para criar filhos. Os primeiros são promíscuos; os outros, constantes...

Parece que existe uma variaçãozinha química fundamental no macho da espécia chamada "gene receptor de vasopressina". Os homens que têm o gene receptor de vasopressina tendem a ser parceiros sexuais leais e dignos de confiança, que se apegam à parceira durante décadas, criando filhos e administrando lares estáveis. Já os que não têm o gene receptor de vasopressina tendem aos flertes e à infidelidade, precisamos sempre buscar variedade sexual por ai...

As biólogas evolucionárias brincam que só há uma parte da anatomia masculina que qualquer candidata a parceira deveria ter o cuidado de medir: o tamanho do gene receptor de vasopressina...

... Mas também não considero eterna a decência de Felipe nem relaxo totalmente em relação à minha própria fidelidade. A história nos ensina que qualquer um  é capaz de tudo nos domínios do amor e do desejo. Na vida de todos nós, surgem circunstâncias que põem em cheque até a lealdade mais teimosa.
Talvez seja isso o que mais tememos ao entrar no casamento: que algum dia as "circunstâncias", sob a forma de alguma paixão externa incontrolável, rompam o laço.

Como se proteger dessa coisa?

O único consolo que já encontrei nesse assunto foi quando li a obra de Shirley P. Glass, psicóloga que passou boa parte da carreira estudando a infidelidade conjugal. A pergunta dela sempre era "Como foi que aconteceu?".

Como é que pessoas boas e decentes, se veem varridas de repente por correntes de desejo e destroem sem querer vidas e famílias? Não falamos aqui de puladores de cerca contumazes, mas de pessoas confiáveis que, contra o seu pr´prio bom senso ou código moral, se perdem.

Quantas vezes já ouvimos alguém dizer: "Eu não procurava amor fora do casamento, só que aconteceu"?
Descrito assim, o adultério começa a se parecer com um acidente de carro, um buraco escondido numa curva fechada, aguardando o motorista inocente.

Mas, na pesquisa, Shirley Glass descobriu que, se escvarmos um pouco mais a infidelidade, quase sempre vemos que o caso começou muito antes do primeiro beijo roubado. Ela escreveu que a maioria dos casos começa quando o marido e a mulher fazem um novo amigo e nasce uma intimidade aparentemente inofensiva. Ninguém sente o perigo se aproximar, porque o que há de errado na amizade? Por que não podemos ter amigos do sexo oposto - ou do mesmo sexo, aliás - quando estamos casados?

A resposta, como explica a dra. Glass, é que não há nada errado quando alguém casado começa uma amizade fora do matrimônio, desde que as "paredes e janelas" do relacionamento continuem no lugar certo. A teoria dela é que todo casamento saudável se compõe de parede e janelas. As janelas são os aspectos do relacionamento aberto ao mundo, isto é, as brechas necessárias pelas quais interagimos com a família e os amigos; as paredes são as barreiras de confiança, atrás das quais ficam guardados os segredos mais íntimos do casamento.

Entretanto, nas amizades supostamente inofensivas, o que acontece é que começamos a dividir com o novo amigo intimidades que deveriam estar escondidas dentro do casamento. Revelamos segredos sobre nós, nossos anseios e frustrações mais profundas, e se expor asssim dá uma sensação boa. Abrimos uma janela onde na verdade deveria haver uma parede sólida e resistente, e logo nos vemos derramando os segredos do coração para essa nova pessoa. Não querendo que o cônjuge tenha ciúmes, mantemos ocultos os detalhes da nova amizade. Com isso, criamos um problema: acabamos de construir uma parede entre nós e o cônjuge onde na verdade deveria haver a circulação livre de ar e luz. Portanto, toda a arquitetura da intimidade conjugal foi rearrumada. Todas as antigas paredes agora são imensas janelas panorâmicas; todas as antigas janelas agora estão emparedadas como as de uma casa abandonada. Sem perceber, acabamos de criar a planta baixa perfeita para a infidelidade.

Assim na hora que o novo amigo entra na nossa sala em lágrimas devido a alguma notícia ruim  e nos o abraçamos (só querendo consolar), e depois os lábios se roçam e percebemos, num ímpito estonteante, que amamos essa pessoa, que sempre amamos essa pessoa!, é tarde demais. Porque , agora, o estopim já se acendeu.  E agora corremos mesmo o risco, de algum dia (provavelmente logo), ficarmos no meio dos destroços da vida, diante do conjuge traído e abalado (de quem ainda gostamos imensamente, aliás), tentando explicar entre soluços que nunca quisemos ferir ninguém e que nunca vimos o que ia acontecer.

E é verdade. Não vimos o que ia acontecer. Mas fomos nós que construímos aquilo e poderíamos ter parado a tempo se agíssemos mais depressa. De acordo com a dra. Glass, assim que percebemos que estamos dividindo com um novo amigo segredos que na verdade deveriam pertencer ao cônjuge, há um caminho muito mais honesto e inteligente a seguir. A sugestão dela é que, ao voltar para casa, contemos tudo ao marido ou esposa. O roteiro é mais ou menos assim: " Tenho uma coisa preocupante para lhe contar. Esta semana fui almoçar duas vezes com Mark, e me assustei porque a conversa logo ficou íntima. De repente, me vi contando coisas que só contava à você. Era assim que conversávamos no início do nosso relacionamento, e eu gostava demais, mas acho que perdemos isso. Sinto falta desse nível de intimidade. Será que podemos fazer alguma coisa para reavivar a nossa ligação?

Na verdade, a resposta pode ser: "Não".

.... Mas se o seu conjuge for receptivo, talvez escute o  anseio por trás da confissão, e tomara quer reaja, talvez até retrucando com a expressão do seu próprio anseio...."  Elizabeth Gilbert

Um comentário:

  1. Os exames para medir o tamanho do gene receptor de vasopressina já fazem parte dos testes pré-nupciais?
    Acho que é uma questão de saúde pública!
    Beijocas.
    Saudades!
    Ana

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