sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quando se escreviam cartas

Realmente é muito gostoso, acho que vou aderir.  Hilzia

Até bem pouco tempo as cartas eram a única forma de se comunicar com pessoas distantes.


Pois então, vejam nas letras dessas canções: “Amigo! Por favor, pegue esta carta e entregue aquela ingrata que me abandonou…” ou então ” Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão…”. As correspondências eram valorizadas em prosa, música e verso!

Isso me faz lembrar quando eu estava no último ano de faculdade e fomos (eu e um amigo) ao Festival de inverno de Ouro Preto - nos tempos do Corcel Belina, da Ford.

Foi uma viagem gostosa e tranquila. Na época nós dois até fumávamos cachimbo na tentativa de deixar o cigarro. Ah! Como se isso não bastasse, estávamos os dois exibindo uma bela barba bem naquele estilo universitário rebelde….rsrs…

Logo na entrada da cidade, ao avistarmos a primeira igreja, duas meninas nos chamaram a atenção. Nós paramos o “possante” e descemos do carro para ter dois dedos de prosa com as gatas.

Foi assim que conhecemos a Ivete Niccoli, uma capixaba de Vitória (ES), e sua amiga (que não lembro o nome). Papo vai, papo vem e para encurtar a história foi a partir desse dia que iniciamos uma amizade duradoura que se desenvolveu por correspondência.

Como era gostosa aquela fase de ansiedade quando contávamos os dias na espera da próxima carta. Nossas mensagens eram quinzenais. A gente lia cada palavra, saboreando cada frase escrita pelo outro. A cada nova linha era possível sentir como o outro estava, ou quais as novidades, sabe?

A alegria de receber uma carta era bem diferente e única, pois se percebia que no momento em que o outro escrevia, ele pensava em você; de certa forma se conectando com maior intensidade e qualidade. Sim, porque escrever uma carta era uma espécie de ritual de dedicação! Era uma coisa essencialmente manual: feito por você, sem interferência ou uso de máquinas. Daí a gostosa energia que emanava de cada palavra, creio.

Sei que logo que recebia as cartas da Ivete eu já logo escrevia a ‘resposta’. Tudo para não perder o clímax.

Por outro lado, devido à demora na entrega das correspondências, as notícias vinham um pouco defasadas. O que se lia geralmente já tinha acontecido. Se eu escrevesse que estava, por exemplo, triste com alguma coisa, até a carta chegar a ela, essa ‘coisa’ já tinha mudado ou passado.

Me lembro que ela veio me visitar quando estava de passagem por São Paulo. Eu estava de férias na praia quando subi a serra para buscá-la na rodoviária. Nesse dia até “ficamos” para aproveitar e concretizar aquela paixão que nos queimava com a distância!

Tudo isso ocorreu bem na época da morte de Elis Regina. Soubemos de sua morte pelos jornais e lembro que chegamos a pensar em ir ao velório. A Niccoli (eu a chamava assim) voltou para Vitória e continuamos a trocar cartas por muito tempo.

Interessante que mesmo quando eu já estava morando em Itanhaém, mantivemos contato e nessas, já no ano de 1987, quando ninguém perdia um capítulo da novela Roda de Fogo, fui vê-la novamente. (Engraçado que ainda deu tempo de continuar assistindo lá os capítulos seguintes da novela).

Ah! Os anos oitenta! Hoje muita gente - nostalgicamente - quer reviver os 80´s, não é mesmo?! Foram anos de muito amadurecimento para todos, mesmo para aqueles que a batizaram de “década perdida”.

Fiquei hospedado por 15 dias, em Vitória, na casa da família dela. Passeamos muito! Conheci praias maravilhosas. Nossa combinação era de que ela voltaria comigo para SP e ficaríamos outros 15 dias juntos em Itanhaém. Mas um ‘ex’ atrapalhou todos os nossos planos: voltei chateado, e só!

Mas quando se ama, sempre voltamos a escrever para saber noticias. No caso de Niccoli, descobri que ela estava morando em Boston, nos EUA. Mantivemos a comunicação por um bom tempo.

Gostoso lembrar desses tempos em que o tempo não era tão cruel, tão rápido….Tempos em que se tinha tempo para o outro! Tudo era elaborado com mais calma. As coisas aconteciam cada qual a seu tempo, sem atropelos.

Talvez seja a hora de colocarmos de lado o computador e o celular e gastar um tempinho para escrever uma carta para as pessoas que amamos - escrever à mão, com lápis e apontador.

Que tal, hein?

Tente! É ótimo, você vai ver.

Henrique Alexandre

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