segunda-feira, 11 de julho de 2011

O QUE É DESEJADO INTERESSA?

Estava Sophie aguardando sua consulta terapêutica numa bela tarde de inverno quando se deparou com um livro infantil onde desenhados na capa dois ursinhos se embolavam com um urso maior. Em meio a várias revistas e livros o título chamou a atenção.
Curiosa e movida por sua paixão pela leitura, passou a folheá-lo como fazia no seu tempo de criança quando lhe sobrava tempo e espaço.
Enquanto seus olhos delineavam cada sílaba que davam voz a estória algo a transportou para momentos dos quais inconscientemente ou não recordava-se bem pouco, na realidade não gostava de relembrar, mas não sabia exatamente o porque.
Na estória o ursinho maior, ainda único filho, vivia com sua mãe, ia ao rio com ela, brincavam juntos até o momento em que ela comunica à ele que irá ganhar um irmãozinho.
A princípio gostou da novidade, mas com a chegada dos irmãozinhos (surpresa - eram gêmeos), logo percebeu que tinha mudado radicalmente de lugar em relação a sua mãe. Os bebês tinham uma relação entre si bem próximos, o que deixava o irmão mais velho sozinho nas brincadeiras e motivo de chacotas.
A mãe, com mais os cuidados  de dois filhotes acumulado a sua rotina passa a designar suas tarefas com os menores para o filhote maior na tentativa de dar conta de tudo antes do dia terminar. Afinal a noite papai urso chegava para jantar e para o qual ela também devia dar sua atenção.
Os gêmeos armavam o tempo inteiro para cima do irmão mais velho que a cada dia via mais e mais sua mãe se distanciando dele assoberbada com a rotina incrementada pelo nascimento dos gêmeos.
Um dia ele percebeu que sua mãe não tinha mais tempo para ele e que ele deveria ajudá-la porque a amava e sabia que ela contava com ele nos cuidados com os mais novos.

Sophie estava em lágrimas quando sua terapeuta abriu a porta da sala  convidando-a  a entrar.
Sem entender o que acontecia fechou a porta, entregou à Sophie um lenço de papel e aguardou-a  acalmar.
Quando conseguiu controlar sua emoção, Sophie (sem perceber tinha dado início a sua sessão terapêutica antes do começo), apenas murmurou que aquela era a sua vida, ou parte dela.

Sophie é a primogênita de cinco filhos gerados por seus pais.

Por ser a primeira e menina sua mãe viu nela a possibilidade de uma ajuda na sua atribulada rotina. Sophia sempre entendeu que tinha mesmo que ajudá-la, pois via sua mãe cuidando da casa, carregando água na cabeça para lavar as roupas da família, a louça, para fazer a comida e dar banho nos filhos. Sua casa não tinha caixa d'água e nem máquina de lavar roupa. Via sua mãe esfregando o chão com palha de aço para depois encerá-lo, via-a passando toda a roupa, mantendo seus filhos impecáveis. Via-a procurando médicos na saúde pública andando de um lado para o outro com todos os filhos e mesmo com todoessa labuta, ainda arranjava tempo para nos finais de semana levar a garotada para passear.

Seu pai como todos os homens da época tinha como função procriar e o sustento financeiro básico da família.

Sophie teve que crescer mais rápido que os irmãos. Por causa deles, ela aprendeu a cuidar, a zelar, a se organizar porque não podia falhar, eles estavam sob sua responsabilidade quando a mãe precisava se ausentar para levar alguém ao médico ou por estar as voltas com suas funções domésticas. Mas ela deixou de ser cuidada por sua mãe querida, agora ela cuidava de diminuir o fardo da mãe.

Sophie hoje enquanto lia uma estória para crianças Sophie teve uma visão da sua vida  de uma forma que ela nunca observara. Descobriu que provavelmente deu a forma de como gostaria de ser cuidada ao seu "cuidar do outro". E que é por isso que sempre se aborrece se algo não vai de acordo com o que ela considera cuidar. Na realidade ela não sabe ser cuidada, ela não sabe pedir para ser cuidada, apenas impõe o que considera cuidar bem.

Foi assim no seu relacionamento amoroso e em outros tantos.

Sophie sabe que sua mãe deu o melhor que ela podia dar, cuidou de todos como uma leoa cuida dos seus filhotes, foi impecável, apenas gostaria de ter tido mais da atenção dela como a do pai. Gostaria de não ter que ser tão responsável com filhos que eles decidiram ter e não ela. Ela desaprendeu a expor o que desejava, ou por medo de ser repreendida ou por ter realmente desaprendido a querer. Em muitos momentos se sentiu sem o direito de ter desejos.

Agora Sophie segue tentando lidar com essa velha realidade conscientizada e está perdida, sem saber lidar com isso no agora. Pensa no quanto seria melhor começar do zero.
Mas, como zerar?
Como começar o início?
O que é o início de uma história já escrita?

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