E para a argumentação de Théo: “Tenho lido suas cartas questionando meu posicionamento quanto ao término de nosso relacionamento e, confesso você me deixa um pouco confuso. A sensação que tenho é a de que nada ocorreu nos dois anos referidos, pelo menos a contar dessa data, que nada fiz pela manutenção de nossa caminhada e que é totalmente arbitrário o meu posicionamento atual. Contudo, eu perdi a conta de quantas vezes, ao longo desses anos, que você expressou seu total descontentamento com nosso relacionamento, com as minhas atitudes e pensamentos e o pleno desejo de terminar a relação. De quantas vezes meu comportamento lhe trouxe desgosto, de quanto isso lhe pesava e o quanto isso me afastava de você. Muitas vezes ouvi de você que não era seu desejo solucionar nada, de mudar nada e que as respostas e modificações deveriam ser efetuadas unicamente por mim.”
Thaíssa responde que o que ela questiona em suas cartas não é o posicionamento atual de Théo já que ele entendeu todo seu esforço de mudança, de saída da estagnação em que o relacionamento se entregou como uma tentativa de terminá-lo, mas sim suas atitudes a partir do momento em que começou a ser cobrado, quando começou a esbarrar com a necessidade de mudança individual para que um consenso pudesse ser alcançado.
Na realidade Thaíssa sempre solucionou tudo dentro do relacionamento e da casa. Desde o que se fazer no final de semana, que já tinha que organizar com antecedência a pedido de Théo, pois ele não gostava de acordar cedo sem que algo estivesse programado, até quando onde deveriam fazer as compras do mês, pagamentos das contas, a faxineira, as roupas.
O que Thaíssa passou a querer era que Théo passasse a tomar algumas decisões, que ele saísse da aba dela onde ele confortavelmente se posicionou durante todo o relacionamento. Então não era a intenção dela não mais solucionar nada e sim não ser mais a responsável por solucionar tudo. Aliás, uma vez ouviu do próprio Théo de que ela não podia fazer isso com as pessoas a sua volta, que ela era líder e que uma líder resolve e ela não podia mudar isso. Foi nesse dia que ela percebeu o quanto Théo adorava essa acomodação de estar sendo levado por ela e o quanto essa mudança pessoal dela o tirava do eixo.
Na mesma carta ele complementa:
“Mesmo não concordando com a argumentação de Thaíssa cedeu o quanto pode e tentou negociar tudo que pareceu à ele razoável, mas na época Thaíssa estava irredutível, certa de seus desejos, intenções e raciocínios. “Nesses anos, mesmo tendo sido alvo de hostilidades, as quais não fiz por merecer, não as retribuí e me mantive fiel às minhas promessas”.
“Lembro ainda que o pedido de separação formal partiu de você e não de mim, em nosso último encontro com a terapeuta. Mesmo assim resisti o quanto pude a essa escolha sua e só me dei por vencido quando o nível de hostilidade ficou insuportável e optei por deixar a casa, sem nunca ter abandonado vocês. ”
Na visão Théolófica, ele fez de tudo para manter o relacionamento. Ficar calado, cedendo, negociando a mesmice e tudo que pareceu a ele, somente a ele razoável foi sua forma de se esforçar na manutenção daquilo que lhe agradava.
Thaíssa, entretanto insistia na mudança que o relacionamento necessitava, devido a sua mudança pessoal, mas aí ela se tornou irredutível, certa de seus desejos, intenções e raciocínios do mesmo modo que ele sempre se posicionou em relação ao que pensava, de como ele achava que o relacionamento deveria permanecer.
Ele foi alvo de hostilidades por parte de Thaíssa, mas ela ser repudiada na cama, nos finais de semana que ele fazia questão de estar com amigas e amigos fora de casa, nos bailes que foi proibida pelo mesmo de participar, pelas noitadas que ele passou a viver foram atitudes de tentar manter o relacionamento e não hostilidades na concepção masculina de Théo.
Thaíssa sim foi ela quem realmente deu voz ao desejo incutido dentro de Théo há mais de dois anos, pois ele não queria mudanças: “ele não ia mudar, ele gostava do jeito dele e não via nenhuma necessidade de mudança.” E ele estava onde sempre esteve, do jeito de sempre, era ela quem queria fazer diferente, então como sempre ela deu forma aos desejos de Théo.
Foi realmente ela que após apenas três sessões de terapia de casal - idéia de Théo que sempre achou que o problema era ela Thaíssa, que dependia apenas dela a felicidade dos dois e na sua concepção alguém precisava alertá-la, alguém precisava ajudá-lo a convencê-la de que ela precisava olhar para o mesmo horizonte dele novamente. E quando foi solicitado, pela terapeuta, sua participação, mudança em algumas de suas posturas como: ele ligar para ela apenas para saber como ela estava, passar um torpedo no meio do dia dizendo a ela que estava com saudades da sua voz, marcar uma atividade a dois para não falarem de problemas familiares e sim dos dois, se redescobrirem, ah, quando foi pedido à ele que a surpreendesse; ele simplesmente achou idiotice e permaneceu estagnado.
Sim, foi ela quem chutou a bola que ele colocou aos seus pés. Foi ela quem disse “desse jeito não dá mais” (tradução Thaíssianica: “eu não quero mais só ir, ou é mão dupla ou estou cansada, mas eu não quero ter você fora da minha vida, apenas quero estar presente na sua”).
Théo quis entender (talvez por ser mais fácil e coerente com o que ele queria) que não a fazia mais feliz, que não tinha mais espaço na vida dela. Foi muito oportuno para Théo ouvir essas palavras, porque no fundo era isso que ele queria e não tinha coragem de verbalizar. O que ele queria era que ela decidisse novamente seus destinos e ele conseguiu.
Ah, tanta coisa Théo poderia ter sido fiel naquele agora. Tantas coisas Théo poderia ter feito para reconquistar sua parceira já que no seu entender ela estava em descompasso com o que ele sabia e tinha como verdade!
O que é ser “fiel as suas promessas”? É não transar com outra pessoa enquanto está no mesmo teto? É de não deixar faltar o dinheiro do condomínio para não perder o apartamento que tanto se dedicou? É não abandonar o barco mesmo que ele esteja afundando, esperando que alguém venha em socorro, empurrando as coisas com a barriga até um dia quem sabe se resolvam sem que se tenha que se comprometer, se envolver? É decidir o que é o melhor individualmente?
O que é “não abandonar”? É sumir, desaparecer do mapa e só procurar para resolver problemas de filhos, de preferência não presencialmente. É proibir que suba ao seu apartamento por torpedo, é não ligar, é não falar sobre porque essa é sua decisão, é não responder, é ignorar, é colocar a história numa caixa de concreto, é intimar na justiça, é achar que o que é resolvido por um tem que ser a opção dos dois, é acusar sem ouvir?
Thaíssa sabe que sua responsabilidade no descompasso do relacionamento foi grande, mas se impressiona até hoje com o que leu de Théo nas vezes em que ele se dignava a responder seus emails de tentativa de um reencontro.
Théo está certo de que fez tudo o que esteve ao seu alcance para resgatar a história dos dois, mas segundo ele não encontrou eco nela. Impressiona como Théo não percebe sua responsabilidade no processo e preferiu buscar em palavras bonitas como: ”o tempo, implacavelmente, passou”; “meu barco está a esmo, mas não estou perdido, minhas mãos estão no leme; para justificar sua falta de coragem, seu comodismo e sua arrogância em achar que tem que ser aceito do jeito que é; que tudo tem que ser do jeito e no tempo que ele acha o certo. E olha que ele sempre dizia a Thaíssa de que ela tinha a síndrome de Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim”...
No final, ambos percorreram o caminho do resgate totalmente a sós.
A diferença é de que Thaíssa nunca perdeu a esperança do resgate, o que ele enterrou assim que resolveu que: “o “algo” fundamental que nos separou (seja lá o que tenha sido) será eterno”. E que dizer da tal promessa no dia em que firmaram seu compromisso com o Universo? Ela também não era eterna?
Mas, para ambas serem eternas precisam de mudanças e isso é algo que Théo já resolveu que não vai existir, porque ele é perfeito.
Florianópolis, 01 de julho
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