PUBLICAR OU NÃO PUBLICAR, EIS A QUESTÃO
por Arthur Werner Menko
Li na edição de ontem do publishnews que foi autorizada por familiares a publicação póstuma de dois livros inéditos de Vergílio Ferreira, que foram rejeitados por ele enquanto vivia.
A notícia não me saiu da cabeça em razão de um dilema ético: temos o direito de trazer à luz obras que o próprio autor não quis que fossem conhecidas?
A questão não é nova. Michelangelo mandou que se destruísse a estátua de Davi por considerá-la desproporcional. Eça de Queirós condenou o romance A Tragédia da Rua das Flores à gaveta, resistindo à pressão de seus editores que queriam lançá-lo. Entre nós, recentemente, foram reunidos no livro Capítulos de História do Império vários manuscritos que Sérgio Buarque de Holanda achava que ainda precisavam de ajustes e não estavam prontos para publicação.
Nos três casos, a vontade de seus autores felizmente não foi respeitada e as obras rejeitadas ganharam às ruas. Digo felizmente porque Davi é merecidamente reconhecido como uma das obras primas do Renascimento; a Tragédia da Rua das Flores é reconhecido pelos estudiosos como a chave para o entendimento do processo criativo de Eça de Queirós; e, finalmente, quem quiser estudar história do Brasil vai ter que se debruçar sobre os Capítulos de História do Império, que já é texto obrigatório nas academias.
Mesmo assim o dilema ainda me persegue. O que deve prevalecer: a vontade individual do artista ou o interesse coletivo da sociedade em aumentar o seu acervo cultural? Não sei a resposta, mas tenho a tendência a concordar com Vergílio Ferreira, que anotou em seu diário que “se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele”.
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