terça-feira, 22 de junho de 2010

ATÉ BREVE!

O que vêem meus queridos amigos e amigas quando me olham inerte nesse nosso último momento em que partilhamos o tempo que nos foi tão caro?

Alguns me conhecem desde o começo, outros se uniram a mim pelo caminho da estrada da vida. Alguns viveram comigo em altas montanhas, outros em profundos vales.

Nesse nosso último encontro estarei eu em uma casca velha, nova ou de meia-idade? Serei eu uma pessoa ainda em sã consciência ou já na fase na senilidade? Não importa - não para o que quero dizer à vocês.

Acredito que estarei olhando cada um de vocês e festejando tê-los partilhados sempre de uma forma onde o amor era o maior objetivo da minha parte.

Esse corpo inerte meus queridos...Ele não sou eu!

Agora vendo minha vida correr em frente aos meus olhos, sou uma menina de tenra idade que tem pai e mãe, irmãos e irmãs que se amam, às vezes silenciosamente, mas se amam.

Uma menina que adora subir em árvores para chupar manga, que adora soltar pipa, correr de pés descalços e jogar bola de gude, queimado e andar de bicicleta.

Sou também uma jovem de 15 anos festejando sua entrada para a adolescência em meio a um grupo de amigos que duraram o tempo que fiquei por ai.

Aos 15 tenho asas para voar, sou rebelde sem causa, abusada, corajosa, sem papas na língua, falante, risonha, namoradeira e que sonha encontrar uma pessoa especial a qual dedicará toda a sua vida, encontrar o ser que será amado por ela por toda a eternidade.

Sou uma noiva aos 23 anos preocupada em ser sincera, transparente, amiga , parceira partilhando e compartilhando o compromisso que meu coração assumiu.

O mesmo coração que hoje se alegra ao relembrar a promessa que fiz de me unir até o dia de hoje – fim dos meus dias – ao amor de minha vida.

Sou ainda uma jovem grávida aos 26 anos de seu primeiro filho. Filho tão esperado, tão amado, que assumi guiar durante sua estadia comigo. Tenho uma família. Tenho um lugar seguro e feliz que construi durante minha caminhada. Como sou abençoada!

Sou uma mulher aos 30 que ficou sem perspectiva de trabalho. Que começa a ver seu filho caminhar sem que sua presença seja necessária em tempo integral. Vejo-o lindo, esperto e tenho a certeza de que existem laços que nos unem e eles deveriam durar também para sempre...

Sou uma mulher adulta aos 40 anos que dá uma guinada na sua trajetória, começa do zero uma nova caminhada na profissão visando sempre o melhor para a família. Pensando em melhorar o peso dos ombros do meu amado, aquele que sempre me apoiou, mas precisava estar mais livres dos compromissos financeiros para quem sabe escolher também outro caminho profissional.

Aos 43 anos enfrento a rebeldia da juventude do meu filho e a sua não permanência constante ao meu lado, ao lado das minhas idéias. Mas tenho meu marido que me acalenta quando fico triste.

Aos 44 anos me deparo com a minha família ruindo. Meu pai, meu marido, meu filho se vão de mim. Percebo ai sentimentos que nunca senti, eles se apossam de mim – o medo e o terror. Nuvens escuras povoam meu caminho. Conheço de perto o sofrimento maior, a tristeza sem piedade e perco de vista minha menina, minha noiva jovem, a mãe dedicada, a esposa amorosa, a profissional. Estou sem o meu lugar no mundo sem meu amado, sem minhas razões de existência.

Caminho um calvário inacreditavelmente longo, sem ao menos vislumbrar a cruz que colocaria fim ao meu sofrimento.

Aos 50 anos caminho sozinha, mas sem estar solitária. Reconheci-me em mim mesma. Acreditei novamente nas minhas verdades e lamentei perdas irreparáveis.

Penso em tudo o que aconteceu e nos amores que conheci. Amores de mãe, pai, filho, irmãos, irmãs, sobrinhos, sobrinhas, amigos, amigas, colegas e de homem e mulher.

Esse amor tão especial eu conheci e sou grata por essa benção que nem todos têm. Não me acho démodé por ter cumprido com a promessa daquela jovem aos 23 anos. Era realmente isso o que eu acreditava.

A morte é uma piada. Tudo desaparece – o corpo, a força, a coragem, a alegria da vida corporal, mas também nos trás esse reencontro com o que fomos ou seja o que verdadeiramente fomos.

No meu caso a menina com várias idades que ainda permanece viva depois da morte e é ela aqui olhando para vocês amigos que choram sua ausência carnal. O coração cansado da luta e das dores ainda está cheio de sentimentos vivos e calorosos.

Estar aqui recordando os felizes e os tristes dias passados me faz amá-los e respeitá-los aceitando o inevitável... De que nada é eterno...

Aqui estou EU, o que realmente SOU além da casca escolhida para viver com vocês todos os sentimentos de vida.

Poucos conheceram esse meu EU VERDADEIRO, poucos tiveram a delicadeza de perguntar sobre ele, de aceitá-lo como ele é e foi para muito poucos mesmo que eu quis revelá-lo certa de que ele seria ao menos respeitado caso não fosse entendido, pessoas iluminadas, ao menos gentis ao ouvi-lo, sem julgar, sem condenar.

Não me arrependo de ter sido transparente mesmo não sendo entendida. Importa é que não passei por aqui eu estive aqui, fiz o meu aqui e estarei para sempre em todos vocês.

Até breve! Amigos.

Hilzia Elane 22.06.2010

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