quarta-feira, 9 de março de 2011

MEU OLHAR PARA O DIA INTERNACIONAL DA MULHER


A aparência do número 8 nos leva ao encontro de um símbolo denominado infinito colocado em pé.

O mesmo infinito que nos embrenhamos quando falamos desse ser do gênero feminino:

A MULHER.

No dia 8 de março de 1957, eu ainda nem tinha nascido, cento e trinta corajosas tecelãs tiveram seus corpos cansados da labuta carbonizados simplesmente por reivindicarem condições de trabalho dignas de um ser humano.

Elas ousaram ter os mesmos direitos que os homens tinham na época e por eles foram massacradas com um ato covarde.

Anos mais tarde esse ato foi escolhido para ser relembrado e transformou-se o dia 8 de março o Dia Internacional das Mulheres na tentativa de homenagear essas mulheres mortas dentro do próprio trabalho, e essa data só foi oficializada pela ONU alguns anos mais tarde.

Para mim o Dia Internacional das Mulheres deveria ser um dia de reflexão individual de cada uma de nós mulheres, um dia em que esse massacre deveria ser trazido para o AGORA de cada uma de nós e relido em cada realidade, em cada corpo, mente e coração cansado de injustiça.

Poderíamos dar início com alguns questionamentos:

Como eu perpetuo a luta iniciada por essas e tantas outras mulheres para termos os nossos direitos, que abandonamos durante a História, devolvidos as nossas mãos?

Submeto-me as exigências da sociedade que pressiona ceder minha individualidade em prol da família que tenho que constituir?

Passo a ser a que resolve tudo de todos porque é esse o meu papel instituído por décadas, séculos?

Tenho que ser uma profissional com salário inferior ao meu parceiro de sessão que faz o mesmo trabalho que eu? Tenho que ser questionada pelo empregador se quero ou não ter mais filhos, sendo esse um quesito importante para que eu seja ou não contratada?

Tenho que assinar um contrato onde consta uma cláusula que não sairei do trabalho caso meus filhos adoeçam?

Tenho que deixar de ler meu livro para passar uma camisa para um marido que está sentado assistindo televisão desde que chegou e que não se perturbou com a louça acumulada dentro da pia, sabedor da minha batalha diária?

Devo me descabelar com um filho que não consegue ver meus limites, impingindo mais e mais atenção para com ele?

Ou devo dizer ao mundo, como as tecelãs fizeram com seus atos, que tenho quereres, que quero melhorar, que preciso descansar e que quero que passem minha roupa também.

Dizer que quero poder sentar para ler e não me sentir culpada por isso, que preciso também ir em frente, estar na frente, no palco ao invés de apenas nos bastidores com a tal fama de que “por traz de um homem há sempre uma grande mulher”?

O dia 8 de março deveria ser um dia em que deveríamos questionar nossas ações individuais e avaliar se não retrocedemos na caminhada árdua que o gênero feminino caminhou. Porque mulher não se iluda, ninguém além de você tem a força para reverter esse quadro. Não espere de fora mudanças que são internas porque elas não virão.

Saiba que irá encarar estranhezas, abandonos, descrenças ao querer mudar a imagem que aprendeu da sua avó, da sua mãe e instituiu como sendo a sua nas suas relações. O mais importante é não se perder de você mesma.

Um dia para pensar como respeitamos esse interior individual, se nos deixamos manipular pela mídia e pior por aqueles que dizem que nos amam incondicionalmente em nome da ordem e da moral.

Dia 8 de março é um bom dia para questionar o quanto nos tornamos infelizes por deixarmos seduzir, ser usada e abusada pela estética unicista que nos é impingida por um marketing com visão masculina?

Dia para pensar no como nos deixamos expor enquanto seres de gênero feminino quando não valorizamos o corpo que gera, amamenta, carrega, luta, cuida daqueles que querem usufruir apenas de momentos prazerosos que muitas vezes deixam um rastro de destruição na mente e coração feminino.

Quando vamos entender que não podemos ser subjugadas e sim amadas principalmente por nós mesmas e que só dessa forma não vamos mais precisar impor que sejamos respeitadas com queimas de sutiãs porque isso ficará implícito em nossas ações diárias?

Esse dia deveria ser um encontro do eu feminino e o eu masculino que habita cada uma de nós para entendermos de vez que não importa se somos mulheres ou homens no gênero. A verdadeira importância está no fato de sermos seres humanos falíveis com os mesmos anseios, mesma busca de liberdade, de encontro, com essências divinas e como tal devemos respeitar um ao outro nos direitos, nas verdades de cada um e entender também de uma vez por todas que as diferenças são o que dá o nó que precisamos dar para tecer a rede da grande humanização que estamos à procura, tanto os do gênero masculino quanto nós do gênero feminino, cada um com seus talentos natos.

Para mim mulheres esse é o dia em que devemos ir de encontro à essência que é individual e infinitamente real.

Sei que meu discurso aqui parecerá utopia para muitas e muitas vezes o é verdadeiramente utópico, por isso a importância de termos um dia para nos lembrar anualmente que temos uma missão maior e quem sabe um dia ir de encontro a uma nova realidade.



Hilzia Elane Almeida Bacellar Rio, 05 de março de 2011

2 comentários:

  1. Torço que seja mesmo utopia. Usando o conceito de Paulo Freite, utopia é o inédito e viável, é uma antecipação.
    Sem utopia revolucionária, não há prática revolucionára.

    Bjs

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