"Eu sei que falei em prazer gratuito semanas atrás, e sei o que vc
pensa a respeito: nada é gratuito. Mas, por enqto não consigo
contrariar essa forte impressão de que a conta não virá. Se eu sinto
alguma culpa, não é pelo o que faço às escondidas, não é culpa por
estar me dedicando a uma experiência socialmente reprovável : é culpa
por não sentir culpa alguma. Por estar achando tudo condizente com meu
grau de exigência em relação ao aproveitamento do meu tempo,
condizente com a minha fome, que nunca foi de comida, mas de vivência.
A pergunta que mais faço é: pq não? Desde pequena, desde que tomei
gosto pelo ato de respirar e me senti atraída pelos dias que estavam
por vir, horas repletas de novidade, desde que eu despertei para a
leitura e que passei a sentir o sabor das coisas de uma forma muito
entusiasmada, desde que eu soube que podia pensar e que o pensamento
era livre, que dentro do meu pensamento ninguém poderia me achar,
desde que meus seios cresceram e eu descobri que pessoas tinham
cheiro, desde lá até aqui eu me pergunto: pq não me oferecer para
aquilo que não fui preparada? Eu tenho as armas de que necessito para
me defender, e mesmo que eu perca, eu ganho, já perdi algumas vezes e
sei como funciona a lei das compensações.
Quero acolher com generosidade o que em mim se manifesta de forma
incorreta. Não vou pedir permissão aos outros para desenvolver a mim
mesma, mando no meu corpo e em tudo o que ele confina, coração
incluído, consciência incluída.
Talvez eu esteja com receio de ter ido longe demais desta vez e esteja
preparando a minha defesa, caso alguma coisa não saia como esperado. O
que eu espero? Não espero nada, espero tudo, estou à deriva nessa
aventura. Eu queria cristalizar esse momento da minha vida, mas estou
em alta velocidade, e não sei se quero ir adiante, só que eu não tenho
opção. Acho que é isso. Eu tinha opções, agora não tenho. Não consigo
parar esse trem.".......
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