O que leva uma pessoa a só ver o ponto preto na parede branca?
A não ser que ela tenha nascido com a missão de infernizar a vida alheia, o que intimamente não acredito que haja nos planos do universo uma missão tão esdrúxula para um ser, então o que leva uma pessoa a só ver o ponto preto na parede branca? Será que ela só vê isso mesmo?
Outra questão é o que leva uma pessoa a só ver a parede branca? O que a faz ignorar a existência de um ponto preto? Será que ele não existe mesmo ou é transformado em algo tão irrelevante que simplesmente é ignorado, talvez por ser uma cor agressiva numa parede de cor tão pacífica.
Definamos o ponto preto e a parede branca para que o leitor não se perca.
Para dizer a verdade não sei bem se a definição que darei é realmente o que é, mas foi o que eu entendi como, ouvi isso durante algumas décadas de duas pessoas e nunca questionei seu significado, apenas incorporei o que entendi como sendo correto. O texto não é meu, portanto darei uma definição que pode ser que não seja exatamente o que é.
A parede branca é tudo aquilo que dá certo, os momentos em que tudo corre a mil maravilhas, tudo nos conformes e que normalmente não é dito, enfatizado ou agradecido. O ser humano tem essa tendência de não valorizar o que é bom, de não falar para o outro o quanto foi legal o que recebeu dele (isso é minha opinião).
O ponto preto é o que estraga a parede branca, deixa-a manchada, feia, aquilo que desvia os objetivos mútuos, aquilo que não se entra num acordo, aquilo que não satisfaz a uma das partes ou a ambas, o que gera desentendimentos, desencontros.
Esclarecidas as definições venho aqui refletir sobre algo que tenho observado em algumas pessoas que tendem a menosprezar a existência do ponto preto. Chegam a acusar quem o vê de insatisfeito, de mal com a vida, de infeliz. Pessoas que vêem o ponto preto são muitas vezes acusadas de só o verem e negligenciarem a parede branca.
O engraçado é que observo esse acontecimento exatamente no momento em que se precisa falar do ponto preto!
Acompanhe minha reflexão teórica leitor:
O ponto preto é a encrenca, é o que não agrada a um dos lados ou a ambos. Momento de sentar, refletir, dialogar, ouvir o que vai dentro do coração do outro. Momento de crise e crise gera mudança interior, o que é muito bom, mesmo que seja dura a passagem para o novo.
Entretanto olhar o ponto preto para algumas pessoas é dureza, chegam a dizer que ele não existe, ou porque não estão interessadas em ouvir o ponto de vista do outro, ou por não conseguir aceitar algo diferente do que pensam, ou não querem as mudanças individuais necessárias para o ajuste nos relacionamentos, ou talvez porque temem se perder de si mesmo acaso vislumbrem algo novo, tipo perder a identidade tão cultivada durante décadas. O novo, o desconhecido dá medo, eu que o diga!
Então o ponto preto não existindo, o que tem sempre que ser valorizado é a parede branca.
Se ele existe não é para ficar mexendo nele, deixa-o lá pequeno, insignificante no esplendor da parede branca.
Será que essas pessoas são realmente pessoas otimistas que estão de bem com a vida e apenas querem viver o branco de-leite?
Não creio nisso hoje, vejo-as como egoístas, pessoas que não respeitam a visão do outro, na realidade nem querem ouvi-lo, porque se o outro vê o ponto preto é porque algo o está incomodando e ele quer falar apenas do ponto preto.
Dizer que o outro só olha o ponto preto sempre e desconsidera a parede branca é uma forma de intimidar, de fazer valer apenas a própria interpretação dos fatos, de querer impingir apenas a sua verdade, de fazer o sentimento do outro ser irrelevante.
Se o ponto preto ainda está em pauta é porque não foi resolvido para quem o aponta. Se ele não for pintado de branco ele sempre estará lá e mesmo a parte que finge que o ignora sabe que ele existe, mas não consegue encará-lo e colocar uma demão de tinta branca, transformando-o, tornando-o um todo parede branca, porque isso dá trabalho, isso exige atenção, isso exige compaixão para com o que vem do coração do outro e nem todas as pessoas têm essa capacidade e preferem viver num mundo ilusório, se refugiando em conceitos, palavras, pré-julgamentos rígidos e muitas vezes arcaicos, até o momento em que a parede branca some dando lugar a um buraco negro que continuará sendo negado.
Portanto, vivamos sim em paredes brancas o máximo que pudermos sem desprezar os pontos pretos porque deles dependem a continuação do caminhar em branco de-leite. São eles que vão nos impulsionar para frente, para o novo, para a libertação.
Enquanto negarmos sua existência carregaremos o peso do desleixo com o que berrava para ser olhado e resolvido, não falar do que nos incomoda não acrescenta nada positivo apenas rancor, mágoas, tristezas.
E convenhamos um ponto preto em uma parede branca não passa despercebido nunca, mesmo que ele se disfarce de cinza.
Hilzia Elane 29.07.2010
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