Aos 44 anos resolvi que queria um companheiro diferente, melhor dizendo queria meu companheiro diferente. Imaginei que ele tinha que entender meu novo querer, que só explicando rapidamente ele entenderia e se transformaria em tempo recorde no que eu
Ao começar verbalizar coisas fora do padrão que havíamos estipulados para nossa vida a dois o amedrontei, o apavorei, sai como um trator derrubando paradigmas e ele absorveu tudo da pior forma possível. Achou-se colocado fora da minha vida, velho e que não mais me fazia feliz e resolveu pular fora da relação, talvez por medo de não conseguir acompanhar a minha mudança (por incompetência ou por simples preguiça) ou porque o que via em mim não mais o interessava e então se envolveu com outra pessoa, uma que não o cobrasse tanto, uma que não o conhecesse além daquilo que ele permitiria.
Supliquei, pedi, implorei. Fui todas as situações que indicam uma pessoa humilhada. Ouvi o que não queria ouvir, vi o que não queria ver. Fui execrada, injustiçada, ignorada e ainda sou. Tentei reverter falas minhas ditas em momentos de ira, desenterrei o passado que nós vivemos durante tantos anos. Tentei demonstrar as inúmeras vezes que tive que subtrair meu orgulho em muitos momentos da nossa caminhada, trouxe à lembrança as ocasionais condutas erradas, arrogantes dele, pequenos descuidos éticos que meus olhos viam e se faziam de desentendidos, dos momentos de egoísmos naturais do ser humano que eu não considerava que eu não valorizava quando vindo dele, tudo em prol de uma harmonia na relação, do amor que eu tinha por ele, do prosseguimento da vida que escolhemos juntos viver. Nada adiantou.
Minhas queixas viraram opressão, minha insegurança invasão, meu medo manipulação.
Todas as minhas colocações presenciais, por email foram ignoradas, simplesmente ignoradas. Não havia retorno, ele simplesmente não se expressava, em momento algum a não ser outro dia, via email para pedir o divórcio.
Nenhuma das minhas tentativas na época foram se quer considerada. No dia 6 do mês do meu aniversário, quando cheguei à casa ele já estava pronto para partir com todos os seus pertences. Aos prantos pedi para que ficasse e retomássemos nossa caminhada, ele somente olhou para mim e disse: “Nunca mais deixe ninguém ver você chorando dessa forma, ninguém.” E se foi, sem um beijo, sem um carinho, sem um titubear da decisão que hoje eu sei já estava tomada dois anos antes daquele momento. E eu achando que tudo era novo, novo só para mim e para meu filho.
Fiquei olhando a porta não sei nem por quanto tempo, as lágrimas corriam aos borbotões, lágrimas grossas. Tinha esperança de um arrependimento ou até de um esquecimento de algo que o fizesse voltar para pegar.
Tinha certeza de que ele não esqueceria nossa História. Que tudo o que vivemos seria o alicerce para ele rever esse momento de conflito de idéias do casal. Mas não foi o que aconteceu. Mantive meus olhos lavados na porta até o dia seguinte, sentada no sofá e um aperto esmagador no meu peito sufocado, sem ar e com muita dor física. Fiquei com tanto medo.
Passei a conviver com um alguém oculto, não era gente, bicho, anjo. Ele chegava no silêncio do deserto da noite e me acalentava, dizia que eu não podia desesperar. Quando ele se foi levou minhas verdades, levou uma parte de mim e eu simplesmente não conseguia viver pela metade. A vida lentificou. Passei a não trabalhar. Passei a ficar olhando para o nada, sentada na poltrona. Até que um dia de uma grande fraqueza fiz algo que enlouqueceu amigos e parentes para me trazerem de volta. Nunca duvidem de quem diz que não quer mais viver, um dia acontece. O meu visitante oculto ficou me olhando com um olhar de “não gostei nada disso”. Falei para ele do que ainda alimentava esperanças, das lembranças de coisas de outras datas, de acontecimentos distantes que insistiam em estar presente. Ele riu para mim, disse que cuidaria de mim e que eu precisava enterrar meus cadáveres e que para minimizar o sofrimento até estancá-lo que não deveria mais adiar o sepultamento. Eu sabia disso, mas quem disse que eu conseguia.
Eu só queria o direito de contar a minha verdade, demonstrar a minha inocência, pedir perdão pelas minhas responsabilidades e ser entendida, ser aceita de volta em seus braços, mas ele não soube ouvir. Ficou só com a versão que quis. Fui simplesmente ignorada. Ele resolveu o que era nosso.
Meu visitante oculto entendia que minha dor estava grudada na espera, eu continuava esperando, mesmo que tudo apontasse para um final, mesmo depois de ele ter me chamado para um encontro reascendendo minhas esperanças onde me comunicou seu novo relacionamento. Não sei como sobrevivi a esse momento, o ar não circulava e eu mantendo a pose. Mais tarde soube que ele já estavam juntos antes e aí veio o sentimento que me tirou do fundo do poço.
Decepção esse foi o sentimento que me fez parar e olhar para ele como um mortal errante. Eu que tanto acreditava nele, ele que não admitia que eu duvidasse dele, tantas vezes brigou comigo por ter ciúmes dele! Ele mentia, ele manipulava, ele já tinha essa separação muito bem resolvida na cabeça dele, por isso a falta de arrependimento, a arrogância em me dizer que já tinha dado a chance que eu precisava e que eu não a aproveitei. Que o tempo tinha passado e que se eu imaginava que ia ficar "batendo" sempre sem levar o troco eu tinha me enganado. Até hoje não sei exatamente o que ele considera bater.
Também não sei até agora quando ele não "bateu", quando ele não pisou na bola comigo, quando ele foi só felicidade para mim.
E aí eu comecei a entender que o amor dele sempre foi por ele mesmo, que quem via nosso relacionamento de outra forma era eu ele o tinha enquanto havia o interesse, ele prometeu algo a mim na juventude que só cumpriria se fosse interessante e fácil para ele.
Desejos de noitadas, música alta na night, de olhares libidinosos, de lençóis desconhecidos, outros cheiros, locais impróprios, viagens diferentes, salto alto novamente, maquiagens, beijos de bocas novas, som no quarto, lingeries novas, frases obscenas, língua no ouvido, bares pé sujo, vinho a qualquer hora, flores em dias comuns.
Vivi tudo isso e valeu tudo, mas em algum momento me peguei mentindo para mim mesma. Eu queria mesmo era uma cama quente. Queria a voz na secretária eletrônica: “Tem alguém aí turma, sou eu”, queria o abraço noturno após o trabalho, o cuidado comigo quando febril, as bobeiras de troca de letras de músicas, do sorriso largo, da chatice do mesmo estilo de roupa, das cores de móveis escuros, das paredes eternamente branco gelo, da farofa maravilhosa que ele preparava, da lerdeza em fazer o que eu pedia, do desligamento e esquecimento quase constante, a reclamação dos incensos que eu acendia, dos óculos sendo tirado e colocado ou ficando na ponta do nariz, do meu motoqueiro, meu alpinista, o pai do meu filho, a fala alterada dele me dizendo que minha forma de colocar as coisas não ajudava, queria a velhice com ele, a pele vincada, a mini barriga, a cueca samba canção, queria seu descaso esporádico e o seu desejo quando menos imaginado, quando tudo parecia dormir, menos a libido dele despertando-o no meio da noite a procura dos meus beijos e seios. Queria os amigos nos dias de aniversários, nos almoços que planejávamos a felicidade escorrendo dos olhos. O amor provocando risadas, ouvir a opinião dele, os copos e pratos especiais para cada ocasião, o cansaço do corpo, a gente se esbarrando pela casa, os telefonemas quando ele em viagem e a eternidade eternizada em nós. A vida numa rotina maravilhosa, a rotina que eu escolhi para mim ainda jovem, mas sabedora do que queria.
Infelicidade a minha não ter me colocado da forma correta. Por ter ouvido e não entendido, por ele não conseguir ver-me como sou, no que me tornei e me aceitar. Pena ele não acreditar que em momento algum eu o retirei da minha vida, mesmo parecendo que fazia isso.
Ele só conseguiu ver os últimos anos que foram infernais não só para ele, também para mim e para nosso filho. Ele se foi e com ele minha alegria inocente, minha alegria genuína. Dele poucas coisas ficaram, até porque o que ficou mandei devolver. Nem minhas alianças ficaram comigo (a do casamento e a da renovação das promessas que fizemos quatro anos antes do fim), num acesso de raiva eu mandei para ele de volta.
Cumpro o ritual de seguir em frente, preencher vazios, tenho sucesso hoje em dia, ás vezes para não chorar e ficar triste escrevo. Escrever faz com que eu organize o que vai dentro de mim. A saudade de vez em quando tenta me desestabilizar, mas eu não deixo.
Meu visitante oculto diz que eu sou maluca, eu sei, mas não me importo. Quero a loucura da saudade. Negar tudo não me protege da vida, aprendi a encarar a dor como aprendizado e não enlouquecer com ela. Há mais perigo lá fora do que dentro de mim, esse eu que conheci, aceitei e perdoei o que tinha que perdoar, mudei o que achei que devia mudar. Entristecer é um direito nosso. A tristeza ela existe e quanto menos negá-la mais leve ela fica e vai mais rápido embora.
Procuro ás vezes alguém em quem possa novamente confiar, não da mesma forma, não me fechar porque um dia me decepcionei com alguém, colocando minha felicidade nas mãos dele, transferindo a responsabilidade que é minha: a de ser feliz comigo para depois ser feliz com o outro. Enquanto a vida ronda as possibilidades podem acontecer.
Hilzia Elane Bacellar
ana disse...
ResponderExcluirDores e alegrias a parte, nada é mais bonito do que ver alguém amadurecer.
Essa é a grande riqueza da vida e nos relembra que somos seres eternos!
Mais uma vez me curvo diante da pessoa especial que é você.