Nunca me imaginei nos braços de outro homem a não ser daquele que resolvi que seria meu parceiro de vida para sempre. Entretanto, não foi dessa forma que aconteceu. A vida nos prega muitas peças e nos surpreende quando menos esperamos.
Não quero escrever sobre essa fase da minha vida e sim como ela, a vida, me ensinou que sempre existe uma saída para aquilo que achamos ser o mais sombrio dos acontecimentos.
No meio do atropelo do fim de uma vida a dois, adentrou alguém que foi logo tomando conta do pedaço como se ele sempre tivesse sido meu. Foi chegando sorrateiramente, seguro do que queria, e eu fui me apaixonando por ele. Nós nos conhecemos através da Internet.
No início, pensei ser apenas um interesse amigável. Nessa época, eu estava numa carência de dar dó!
Conversávamos por e-mail. Eu escrevia tudo para ele, todos os meus sentimentos, os bons (raros naquele período) e os ruins.
Foi então que ele escreveu um e-mail intrigante que me deixou de cabelo em pé. Falava do decote de uma das minhas blusas, numa das fotos que lhe mostrei. Sabe aquele alerta que soa normalmente nas mulheres e que, se a gente fosse traduzir, sairia um PERIGO, PERIGO?
Pois é, fiquei meio aturdida, diria desesperada e muito incrédula. Como assim eu estar sendo paquerada, causar interesse a alguém? Sentia-me sem desejo Como assim alguém me olhar com desejo? Só podia ser brincadeira e, vamos combinar, algo de mau gosto naquelas circunstâncias.
Mesmo assim, marcamos um encontro, meio esperançosa e nervosa, claro, e ele veio até minha cidade. Assim que nos vimos, comecei a falar e não parei mais. Falei tanto, mas tanto que não dei brecha para nada acontecer; ele me respondia quando conseguia e ria, não sei se de mim ou para mim. Então, abraçou-me e sussurrou ao meu ouvido:
— Tenho que ir agora, mas eu volto.
Senti um alívio quando ele se foi. Não que não o quisesse, na realidade não sei mesmo se não queria ou se estava com medo, afinal só tinha ido para cama com o meu marido durante anos a fios. Como assim um corpo novo em meus braços? Como fazer amor com outra pessoa? Quem me aturou foram uma amiga e minha terapeuta, que achou um absurdo esse meu medo. Falar é fácil; queria ver se fosse com ela.
Enfim, a semana começou e eu ligadinha na Internet, esperando receber uma nova poesia. Ao me deparar com o esperado e-mail, obtive a certeza de que as intenções eram realmente outras além de ser um amigo descompromissado, um ombro onde eu pudesse chorar. Tudo bem que pareço lerda, mas, leitor, tente levar em consideração o momento em que eu vivia. Estava literalmente em depressão, não conseguia visualizar um palmo à frente; vivia chorando, pensando em morrer. Como ia acreditar de primeira que tinha alguém interessado em mim e, mais ainda, em me levar para a cama?
O e-mail dizia assim: não se preocupe sobre nosso encontro, eu curti muito te ouvir, foi muito legal. Pode falar, eu gosto de ouvir. Quando acontecer, sinto que vai acontecer e penso que vai ser muito legal, será natural como uma leve brincadeira. Cheguei a sonhar com. Se no sonho foi bom, imagine ao vivo!!!
Quase surtei! Foi uma mistura de alegria, medo — e não desespero —, um turbilhão de sentimentos. Liguei para minha amiga.
— Eu sabia!
Como ela sabia e eu não? Contei para minha terapeuta, que perguntou:
— Por que não?
Caraca, tem horas que é melhor ser surda!
Fui para casa e a pergunta ficou na minha cabeça. Por que não? Afinal, eu era separada, meu marido simplesmente me ignorava. E esse homem me seduzindo, me desejando.
Por que não?
No Dia dos Namorados, recebi um sedex com apetrechos para a nossa primeira vez: óleo de massagem, preservativos e um CD com umas músicas lindas. Ele me pediu para escolher uma para a nossa primeira vez. Eu estava diante de um Don Juan, um sedutor delicioso, e estava adorando tudo.
Na madrugada anterior ao nosso encontro, quase tive uma síncope; não dormi, andei de um lado para o outro. Quando ele, enfim, chegou à minha casa, pensei que ia morrer de falta de ar. Não conseguia falar, não sabia como me portar, me mover. Sentia-me meio que uma boneca de pano que não respira, não fala e é desengonçada.
Ficamos meio embaraçados no início até que ele me puxou contra si — vai ter que ser desse jeito senão você vai começar a falar — e me beijou. E me acariciou toda, ininterruptamente, sem tirar sua boca da minha. Quando percebi, estávamos nus. Confesso que pensei em desistir ali. Meu Deus, o que vou fazer agora? Parecia que eu tinha desaprendido tudo. Mas ele foi um mestre, parecendo adivinhar meus pensamentos. Agarrou-me com uma força deliciosa e me levou para a cama, fazendo-me deslizar pelo corredor até lá. Quando me dei conta, ele já era meu homem e eu, mulher dele.
Falando assim parece fácil, mas devo confessar que não foi. Eu não conseguia abrir os olhos. A finalização dessa noite foi terrível. Não sabíamos o que dizer um ao outro, o que fazer. Não que não tivesse sido bom... Foi um espetáculo!
Cheguei a dizer à minha amiga que ele beijava mal. Que ridículo!
Fui a outro encontro decidida a dizer para ele esquecer o que tinha acontecido, que não era por aí. Não articulei palavra alguma quando o vi. Foi como se precisasse da energia dele para recarregar a minha. Para minha surpresa, eu o desejava demais.
As preliminares foram deliciosas! Indescritível o instante em que nossos corpos se pertenceram. Senti-me uma deusa no ritual do amor. Caramba, que beijo!!! Como pude não gostar daquele beijo? Entregamo-nos um ao outro durante horas seguidas. Eu estava em outra dimensão, torcendo para que não acabasse nunca aquele momento.
Era chamada de desejada, vulcão, menina de Mercúrio, era arranhada na coxa, beijada na orelha, acarinhada diariamente por seus dedos via teclado, nos e-mails que trocávamos quando estávamos longe um do outro. Ele me mandava beijos no decote, falava coisas indecentes, me desejava sonhos molhados. Dizia que estava ansioso para me ver novamente. Eu não ficava atrás e lhe sussurrava coisas eróticas. Reaprendi com ele a arte da sedução. Não verbalizávamos palavra alguma quando estávamos juntos. Dizíamos tudo com o olhar, com o toque, com a alma e com os beijos, que beijos!
Deparei-me com o fato de que havia muito tempo que eu não seduzia meu marido, que tinha desaprendido a ser amante daquele que escolhi para viver comigo.
Cada vez mais sintonizados, dei asas a uma fantasia minha: amarrei-o com fitas vermelhas na cabeceira da cama e o vendei. Surpresa, descobri que ele não se incomodou com a situação. Pedi que ficasse quietinho e fui obedecida!
Massageei, deslizei, beijei, soprei e me deleitei naquele corpo cheio de desejo, visualizado no pulsar dos músculos e na respiração ofegante. Quando permiti que ele se mexesse... Foi a festa! Brincamos por horas a fio.
Um dia, ele veio mais tarde, quase noite. Cobrou-me o banho que eu havia prometido por e-mail. Puxa, foi uma enxurrada de emoções debaixo da água. Massageamos nossos corpos com sabonete, transcendemos ao local, a energia que vibrou ali foi algo que nunca tínhamos experimentado. Arrepio-me só de relembrar. Fico pensando, às vezes, que atingimos algo muito especial. Vê-lo no gozo foi gratificante.
Com ele, fiz coisas que nunca imaginei. Com ele, fui outra, fui aquela que nunca conheci, que de certa forma tinha receio de presenciar. Com ele, revelei-a a mim e não me envergonho dela; acho-a deliciosa.
Essa realidade mágica durou um ano, mais ou menos. Como o esperado, as coisas foram mudando de curso. Relutei muito para permitir seu afastamento e sempre que podia o seduzia, apesar de sentir que não era mais a mesma coisa. Ele queria trilhar outros caminhos, porém eu ainda precisava dele para viver.
Ele foi a minha salvação, a mão que me lançou para o ar novamente num momento em que eu me sufocava com minhas mágoas, tristezas e desespero. Ele me fez sentir bonita, sedutora, ainda mulher na cama e fora dela. Por causa dele, emagreci, comprei roupas novas, comprei xícaras novas, voltei a sorrir e a cantar. Por causa dele, renovei meus CDs, conheci ritmos novos, vi filmes que nunca veria. Li livros que me mostraram um caminho novo a percorrer. Essa criatura fofa me fez conhecer novos conceitos, me livrar de outros. Viajei muitas horas para estar junto dele, beijei muito na boca, falei coisas decentes, fiz coisas indecentes. Com ele, aprendi a viver o que temos para viver sem medos. A não me preocupar com o futuro e não me prender ao passado, a não sentir culpa e que o certo e o errado são relativos, que julgar os outros nos leva ao sofrimento. Aprendi a não ter expectativas e que só preciso da minha pessoa para ser feliz. Por causa dele, tornei-me inteira, me reinventei.
Conviver com esse menino me fez ver que é importante nos mantermos amantes daqueles que escolhemos para estar ao lado por um longo período na vida e, com isso, cativar e cuidar da felicidade interior. Que é aí, nesse momento de paixão a dois, que a magia transforma a rotina e dá forças para continuar a caminhada individual, fazendo valer a pena os momentos em que se abre mão da individualidade. É fundamental falar bobagens, transgredir, brincar, seduzir, surpreender quem escolhemos para dividir o dia-a-dia, deixar a relação leve, intrigante e — por que não dizer? — inebriante sempre. A felicidade só será eterna se a cultivarmos dentro de nós mesmos com o intuito de depois fazermos a troca de uma boa energia num cultivo mútuo. Que mudar é necessário e o segredo é as pessoas mudarem juntas, entenderem que as divergências convergem para a essência do outro e que a diferença não é ruim.
Amo-o de paixão, meu menino sedutor. Talvez não haja ninguém mais capaz de me encantar como você me encantou. Nunca deixarei seu corpo deixar o meu, seu beijo deixar minha boca. Minha alma estará para sempre presa à sua. Nunca o esquecerei, menino de Saturno, que me fez ser criança novamente, me fez leve, divertida e me surpreendeu muitas vezes. Sempre vou te querer e, quando eu for a Saturno, lhe farei uma visita de amiga.
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